Hospitalizada e desenganada pelos médicos
Regina (com Tuanny): uma operação delicadíssima por conta da ação da cocaína O sucesso da loja não era o suficiente para bancar o vício. A solução foi traficar. Três anos depois de ter aberto o empreendimento, ela o via sumindo - como a cocaína que devorava - perdido para o tráfico. O seu dom para negócio não bastou para sustentar a adicção. Como pegava droga em consignação e consumia mais do que vendia, começou a vender o que tinha na loja para pagar os fornecedores da droga. Já não ligava para mais nada, já não ía mais para a empresa, deixava tudo por conta dos funcionários. "Eu via que chegara a um ponto em que ia morrer", relembra. Entretanto, nem essa sensação de morte iminente a demovia da idéia de abandonar as drogas e procurar tratamento. Em Pirassununga, cidade onde morava, chegou a jogar a seringa de aplicação fora, mas no dia seguinte, sem lugar para comprar outra e com uma fissura enorme pela droga, fez uso da mesma seringa - suja e contaminada - para administração da cocaína. De imediato sentiu um frio intenso e, logo depois, com outra aplicação, dores violentíssimas. Era o ápice da sua drogadição. E ela teve de pedir ajuda.
Levada pelos amigos para o hospital, nem assim ela admitia para a família e para os médicos que era uma drogadependente. "Ela me telefonou dizendo que estava com uma febre muito grande e que ninguém descobria o que era", afirma Dona Lucy. No hospital foi constatada uma hepatite avançada. Ela estava com o fígado dilatado com perigo de rompimento. Outras complicações demonstraram aos médicos que seu quadro era gravíssimo e ela foi aconselhada a vir para São Paulo. Internada com urgência no Hospital 9 de Julho, começou-se a busca do foco infeccioso. Foi acometida de uma parada renal, outra digestiva e encarrilhou cinco pneumonias seguidas. Regina permanecia escondendo que era drogadependente. Somente depois de quatro meses hospitalizada, já no isolamento da UTI (achava-se que era portadora de HIV), já sem poder articular direito, sem poder se locomover, com o corpo inteiro em síncope, ela resolveu que falaria sobre seu problema. Tão logo revelou que era drogadependente, os médicos descobriram o foco infeccioso no coração. Regina possuía uma endocardite bacteriana, uma gravíssima infecção. Mas não tinha Aids. O prognóstico do seu caso era sombrio. Todos os antibióticos tentados, inclusive alguns importados pelo pai, não surtiram efeito porque seu sistema imunológico estava destroçado pela cocaína. A indicação cirúrgica foi feita, mas os médicos (entre eles Dr. Adib Jatene) achavam que ela não tinha condições de aguentar sequer o ato anestésico, tão grave era seu estado. A opinião que Dona Lucy e Sr. Rubens mais ouviam era que ela morreria e, mesmo que por um milagre sobrevivesse a cirurgia, ficaria demente. A cirurgia, última tentativa, foi realizada em junho de 1988 pelo Dr. Ricardo Mello, então médico da equipe do Dr. Zerbini do Hospital Beneficência Portuguesa, de São Paulo. A válvula necrosada do coração foi retirado e ela sobreviveu. Pesava 38 quilos, tendo passado seis anos fazendo teste de HIV. Hoje, Regina coleciona as seqüelas deixadas pela cirurgia. Sua oxigenação é 50% inferior ao de uma pessoa sadia. Sem fôlego, com cansaço permanente, não pode fazer nenhum esforço, perdendo com isso oportunidade de trabalhar. "Eu fiquei deficiente", sentencia. Seu coração está dilatado com um processo de falência do músculo cardíaco. "Na época me deram um ano a mais de vida somente". E completa: "Devo minha vida a Deus, pois foi minha fé Nele que me salvou".
Encarar a vida
Outras sérias complicações advindas de anos de administração de drogas são as hepatites que contraiu. Ela possui as do tipo B e C. As duas são autênticas bombas-relógio. Essa última adquirida devido à administração de cocaína com agulhas contaminadas, incuba por um período de mais ou menos 10 anos, para só então eclodir. "E quando isso acontece, ela desenvolve uma cirrose de fígado ou um câncer, ambos fatais", observa. E complementa: "A grande maioria de portadores de HIV também têm hepatite, e essa última merece ser convenientemente tratada". Essa lucidez sobre a gravidade do seu quadro não foi suficiente para que Regina abandonasse as drogas, mesmo depois de ter passado por uma operação delicada como a que passou. O que a sensibilizou de forma definitiva foi o nascimento de Tuanny, sua filha, em 1994. Ela percebeu que se não parasse com o uso, deixaria órfã uma criança que ela insistiu em ter por amor a Deus, mesmo indo contra os prognósticos dos médicos que diziam que seu coração não agüentaria a gravidez.
Regina procurou o GREA - Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas, do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, em 1995, e iniciou o tratamento que a libertaria de uma vez por todas da escravidão das drogas. Tuanny já estava com um ano quando o marido de Regina descobriu-se portador de HIV, afundado que estava nas drogas e no álcool. Diante desse quadro, só lhe restava abandonar definitivamente os dois: as drogas e o marido. Assim que descobriu a soropositividade do marido, Regina passou a trabalhar em ONGs - Aids. Ela foi morar com os pais, com quem está até hoje. E é nesse lar, um apartamento modesto em São Paulo, que Regina encontrou alguma paz de espírito para criar a filha e rever alguns projetos de vida. Projetos pequenos e de curto prazo, ela admite, pois com problemas no coração e com uma hepatite gravíssima que pode ou não eclodir, ela precisa administrar sua vida todos os dias em que acorda viva. A solidariedade dos pais e dos novos amigos é fundamental. Quando no hospital, Regina lembra que não recebeu um telefonema sequer. "Correram notícias de que eu tinha morrido; essas notícias chegaram ao interior o que foi suficiente para que o que restou de minha loja fosse saqueado", afirma com indisfarçável amargura. Há um ano o marido faleceu. A droga e o álcool não permitiram que ele se tratasse de modo conveniente da Aids. Lá se vão 43 anos desde que Regina nasceu. Olhando para trás, ela atribui o início de tudo à geração contestadora em que cresceu. Os anos 60 e 70 foram pródigos em romper com valores sociais e culturais herdados do pós-guerra. "A droga, por exemplo, não era coisa de gente de todas as classes como é hoje; só filhinho de papai que vinha dos EUA é que trazia", relembra. Ela afirma que o uso da droga a levava a outros estados de consciência que ela tanto almejava. "Eu não queria prejudicar ninguém". Dona Lucy concorda com a filha e crê que a grande virtude de Regina, sua imensa curiosidade, foi o passaporte para o inferno em que mergulhou. "Ela sempre foi muito inteligente e se aprofundava em qualquer tema que a interessasse", diz. "Em nível espiritual, me parece que eu vim dirigida nessa vida para resolver de uma vez por todas esse problema", acredita Regina. O que assombra em seu depoimento, é a serenidade com que trata não só seu passado como seu futuro. Diante das portas da morte tantas vezes, ela surpreende ao falar do seu grave estado de saúde e encarar que pode morrer a qualquer hora. Prefere encarar a vida e por isso vive, vive muito, algo que deixou de fazer ao longo de 28 anos, quando pela primeira vez, cheirou benzina e fumou maconha.









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