
Segue abaixo breve histórico sobre a prostituição masculina;
A prostituição masculina, entendida como muito pior do que a feminina, devia, portanto, ser reprimida de forma ainda mais eficaz. Não se via nessa prostituição uma forma de trabalho e procura de satisfação sexual e sim um crime. O homossexualismo masculino foi a forma de sexualidade em relação à qual a visão dos criminólogos esteve mais enraizada na visão da Psiquiatria, onde buscaram as origens da criminalidade.
Michael Pollak apontou que
no final do século XIX e no início do século XX, importava justificar ou combater cientificamente os estigmas destinados a um grupo social designado como `homossexual', elaborando uma geografia sexual cujos territórios se definiam em função de sua realização com a natureza97.
Peter Fry e Edward MacRae, por sua vez, assinalaram que
na segunda metade do século XIX, porém, irrompe na Europa e no Brasil toda uma preocupação médica com a homossexualidade e, de fato, quaisquer relações sexuais fora do casamento, incluindo a prostituição. Formou-se a idéia de que a `saúde' da família é dependente, portanto, do controle da sexualidade.
Fry e MacRae descreveram como um médico do século XIX caracterizou os homossexuais:
Para Krafft-Ebing, o homossexualismo era ou uma patologia congênita ou uma mera perversão quando praticado por pessoas não uranistas. Este médico (...) chegou à conclusão de que os uranistas sofrem de uma mancha psicopática, que mostram sinais de degenerescência anatômicos, que sofrem de histeria, neurastenia e epilepsia99.
A homossexualidade acabou sendo categorizada, por diversas correntes do pensamento científico, religioso ou político daquela época "como, perversão, crime, desvio". Daí, os homossexuais viverem na clandestinidade principalmente pelo medo da violência repressiva. Castro afirmava em 1897 que "os médicos tinham vergonha de se ocupar com tal problema": além da vergonha, a homossexualidade era entendida como um problema.
No fim do século XIX, o Chefe de Polícia registrou a existência de "3 casos de pederastia, crime raro em São Paulo". No início do século XX, a Praça da República já era freqüentada pelos travestis. Em 1921, a 2ª delegacia da cidade registrou 6 prontuários de pederastas passivos, em 1922, 9, no ano seguinte 13 e em 1935, 2. Nas décadas de 30 e 40, os prostitutos freqüentavam a Praça da República, o Parque do Anhangabaú, o Jardim da Luz e a Rua Conselheiro Nébias.
Na década de 30, os homossexuais delinqüentes eram enviados pela polícia de São Paulo para o Laboratório de Antropologia Criminal do Instituto de Identificações de São Paulo,
onde os médicos levaram adiante suas pesquisas sobre as causas biológicas e sociais da homossexualidade, com ênfase sobre os biotipos e ambiente social dos indivíduos em questão101.
Castro avaliou em 1895 que
entre nós a pederastia tem tido grande desenvolvimento. O onanismo anal com as mulheres, o coito antinatural, está se tornando um costume entre os moços. (...) Mas a inversão propriamente sexual, o amor do homem pelo homem, tem também progredido. No tempo do Império acusou-se mais de um político notável deste vício, uns ativos, outros passivos.
Referindo-se ao Rio de Janeiro, ele disse que
depois que o novo Codigo Penal da República considerou a pederastia um crime, todos os anos no fôro desta cidade iniciam-se uns dez ou doze processos por violação de menores103.
Ele entendeu que a pederastia se devia à loucura, a um vício ou a um hermafroditismo moral instintivo. Essa "loucura erótica seria um sintoma de um estado patológico". A inversão seria adquirida, "constitue mais uma enfermidade da vontade do que uma enfermidade da sensibilidade genésica". Os homossexuais para satisfazerem os seus desejos não teriam barreiras, caindo na criminalidade - estelionato, abuso de confiança, roubo e assassinato. Parte da criminalização da homossexualidade masculina foi feita através da repressão aos prostitutos.