Um olhar sobre a Prostituição Masculina ...


04/05/2006


Cada Garoto uma História

Estes são fragmentos das entrevistas feitas no Largo do Arouche - SP , região Central, durante uma madrugada de sábado.Os nomes são fictícios as histórias são REAIS !!!

 

Roberto

 

Quando passei pela esquina Roberto me chamou para contar sua história.

Estudante de Direito, largou família e faculdade em função das drogas,uma de suas frases marcou minha vida:

“Para não virar mendigo me prostituo”

Depois de diversa tentativas de largar as drogas, de várias internações, sua família desiste, ele após semanas dormindo nas ruas resolve virar michê.

Ele fazia questão de falar que a droga o fez largar tudo, inclusive o curso de Direito (3º ano).

Sua idade não mais que 23 anos.

 

Renan 

Ao chegar do nordeste, trabalhou em diversos lugares, em diversas profissões, quando surgiu o grande convite.

Se tornar michê ,hoje além de michê é ator pornô, tentou parar virou instrutor de academia, conheceu as drogas.

No Rio de Janeiro devido a dependência virou mendigo, os outros michês o tiraram da rua.

Voltou para a prostituição , todas mudanças ocorreram durante a minha pesquisa.

 

 

Algo que me chamou  atenção durante este trabalho era a união, a irmandade que une estes rapazes e a família que formam.

Sentimento tão raro em nossa sociedade tida como normal.

 

Ouso dizer que existem sentimentos  mais verdadeiros no submundo do que os que compartilhamos fora dele!!!

 

 

Escrito por Andresa Vicentini/pesquisadora às 01h17 PM
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03/05/2006


Soneto enviado por Eliane Machado

 

Autor Encandescente

Soneto para uma Prostituta!

 

Fazes do amor o teu aporte para a vida!

Entregas teu calor, teu fervor e tua sorte,

Para homens que te amam ou desprezam até a morte,

Vítimas da ignorância que é regra e não exceção.

 

E que desconhecem o amor de Jesus por Madalena,

Que não reconhecem a dor que te causa o desamor.

Tu que choras a grande dor de um coração sem dono,

Que com ternura afagaria a todo o mundo,

 

Mas que vive a ilusão de num segundo,

Um belo príncipe retirar-lhe da amplidão do velho mundo,

Perpetuando e amando inteiramente o teu ser,

 

Perdoando o teu passado cujos pecados te condenam,

Ratificando a tua conduta visto que já não és puta,

Retificando a heresia, pois agora és Maria!!!

Escrito por Andresa Vicentini/pesquisadora às 08h41 AM
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Texto 2 - Eliane Machado

 

 

Prostituição é  muito mais que uma questão social.

Quando há muitos anos disseram que iriam colocar um homem na lua ou que iriam clonar pessoas parecia utópico.

Hoje parece utópico colocar as pessoas de volta no planeta com um mínimo de coerência.

Perguntaram a uma senhora nômade do que ela sentia falta e saudades. Um breve silêncio, e a resposta foi apenas uma expressão de questionamento. Ela desconhecia sentimentos como falta e saudade. Aquele era o seu mundo.

Sem apegos, um dia de cada vez, seguindo os melhores ventos e não tendo motivos para olhar para trás.

Não podemos responder aquilo que desconhecemos. E nem sempre o conhecimento e a inteligência nos fazem mais racionais e melhores.

Muitas vezes temos que nos despir de nós mesmos, dos nossos conceitos para formular algo tão maior e que dê sentido a nossa existência.  

A prostituição não tem sexo, cor, raça e uniforme. Com tempo o nosso corpo se degenera e convivemos apenas com as nossas lembranças onde muitas vezes fomos atores principais em peças que nem Sade ousaria   escrever.

Hoje há um grande olhar voltado para a prostituição masculina, porque até então eles tidos como provedores, o lado mais forte da história se encontram sob foco da mídia.

Essa coisa que tem o poder de enaltecer e ruir com pessoas.

Observamos o próprio contexto de nu artístico masculino que temos disponível no mercado mundial, muito pequeno em face ao feminino.

Pegar exemplos de prostitutas famosas que mudaram suas histórias ou mesmo as estatísticas que 66% das mulheres já fantasiaram em ser prostitutas, segundo a revista Marie Claire, me faz lembrar do sonho americano. Algo que se compra sem garantias e o centro de reclamações mais próximo está do outro lado do oceano.   

O fato é que viver de exemplos, sejam bons ou ruins, nos afasta da nossa essência, porque cada ser é único.

Não dá para tratar certos problemas como epidemia, quando o DNA é uma cópia exatamente oposta à outra.

A prostituição não é a profissão mais velha do mundo como muitos dizem. Ela talvez seja o primeiro grito de socorro abafado da humanidade.

Ninguém sente prazer em violentar muitas vezes seus limites e sonhos em nome de um propósito maior. Você até pode discordar, mas ouça o seu coração e vai perceber.

Todos temos sonhos, vontades e até bem pouco tempo atrás acreditávamos no Papai Noel.

Dinheiro fácil. Ao contrário. Fácil é ver e mostrar o que a sociedade quer ver. Hoje praticamos a filosofia do parecer.

Parecer que é bom e que gera sucesso. Não medimos mais as pessoas pelo que elas possuem ou fazem. Mas pela aparência.

E compramos pessoas a todo momento, assim como suas histórias.

Nessa batalha não há vencidos ou vencedores, apenas a vontade de sobreviver. Seja com o nome, tom ou cor que seja dado.

Em toda profissão fala-se em carreira, com o objetivo de gerar a satisfação pessoal, moral e criar condições para um futuro melhor.

Ver por esse lado realmente a prostituição é algo transitório, mas nossas necessidades básicas não são. Ninguém vai chegar a ser CEO prostituta ou michê, falando de uma maneira bem humorada, mas podemos fazer que isso seja menos doloroso e principalmente menos perigoso.

Sob a escuridão, o frio da madrugada, os passos atentos aos faróis, à espera de um próximo cliente ou dentro de uma casa aparentemente segura, a todo o momento mais um rabisco vai sendo delineado com um único objetivo, sobreviver. Quando na realidade queremos viver, como seres especiais sendo parte de algo e de alguém.

A única mensagem que podemos deixar aqueles que estão nas ruas esperando o próximo cliente é que estamos te esperando.

Porque sempre há pra quem voltar.

Só precisamos de um olhar sob a prostituição.

 

 

Escrito por Andresa Vicentini/pesquisadora às 08h27 AM
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Continuação do texto Eliane Machado

A Má já era um pouco mais centrada, nunca a vi reclamar das opções que fez. Hoje ela tem uma vida comum, não terminou a faculdade, mas é sempre a mesma aparência de pedra.  

Eu não conseguia perceber mais o que estava a minha volta. Escutava no ônibus alguns homens dizerem que não sabia o porquê fazíamos faculdade para terminar em casas de massagens e fazendo programas. Um dia andando por uma rua super movimentada do abc, escutei dois garotos comentando, "você quer ver essas garotas é só descer no bar perto da faculdade, não sei quanto cobram".

Minha ficha caiu nesse dia. E eu não consegui mais esconder da minha família o que estava acontecendo. Eles não sabem a fundo o que ocorria, sabem sobre os abortos e outras coisas.

A rua te ensina a "congelar", não mostrar sentimentos e não olhar para trás.

Muitas vezes minha mãe me batia, uma vez ela rasgou um vestido inteiro no meu corpo e me mandou embora. Mas sempre tinha alguém que acalmava a situação.

Minha família nunca desistiu de mim. Penso que eu realmente teria tido dias bem breves se eu continuasse mergulhada em tudo isso.

Costumo dizer que todos temos algo dentro de nós, basta um estopim para que venha a tona.

Oito anos depois, quando olho a minha história eu digo que sobrevivi. Não sobrevivi à sociedade, as estatísticas ou a morte.

Eu sobrevivi a mim mesma. Ninguém pode viver quando é o primeiro a sabotar a si mesmo.

O que nos move a acordar é a Fé. Sempre. Fé no outro, Fé na vida, Fé em si mesmo. Fé nas pequenas batalhas importantes do seu dia. Eu tenho Fé e você?

 

 

Escrito por Andresa Vicentini/pesquisadora às 08h25 AM
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Texto Eliane Machado

 

Este texto foi gentilmente escrito por Eliane Machado - Blog http://www.rabiscodacad.blogspot.com/

Eliane agradeço a contribuição, a atenção e o carinho.Parabéns pela sua coragem e por não ter desistido de vc!!! Eu te admiro muito ...

Naquele mesmo ponto todos os dias quando cumprimentamos os amigos e quando dizemos adeus só no resta uma certeza a vontade de superar todas as estatísticas.

As estatísticas que medem as drogas, os assassinatos, o aborto e os constantes espancamentos. Tenha sempre a certeza que todos sempre temos para quem voltar.

Me relacionei com a prostituição diretamente por seis meses.

Não me faltava dinheiro, não me faltava amor da minha família, universitária, compradora internacional, 22 anos, falava dois idiomas fluentemente e mãe de uma menina de dois anos.

E você deve se perguntar de onde vieram os meus motivos?.

Muitas vezes costumo dizer que somos nossos próprios algozes.

Quando fiquei grávida da minha filha recusei todos os citotecs, praticamente fugi da clínica de aborto e lutei contra o mundo pra tê-la

Dois anos depois lá estava eu grávida novamente, vinda de uma família extremamente rígida eu só conseguia me enxergar sem ter onde morar com a minha filha nos braços. Como nesses momentos subestimamos a família e quem nos ama.

Pratiquei dois abortos em menos de seis meses e perdi o rumo da minha vida.

As palavras do "doutor" "vinte minutos e vida nova", tiveram outra conotação na minha vida.

Foi onde me aproximei da Má. Loira, bumbum lindo, pequena e muito bem vestida e maquiada sempre.

Um dia ao nos despedirmos no ponto de ônibus , percebi um carro importado esperando por ela. Achei legal ela estar namorando, o que não demorou muito para ela me contar sobre sua vida e seus motivos que a levaram a prostituir-se.  

Muitas vezes eu ficava horas escutando a Má discorrer sobre como o cliente X gostava de puxar seus longos cabelos loiros e cavalgar ou mesmo quando ela dava aquele enorme sorriso e dizia: - Hoje eu comi o X salada mais caro da minha vida. O motel era um luxo, o cliente era ótimo, perfumado, bonito. Tenho dias de sorte as vezes.

Muitas vezes ela ia embora com seus clientes e eu ficava no bar me entupindo de álcool, jogando e aprendi a fumar cigarros nessa época.

Ir para minha casa era um verdadeiro martírio. Nessa época de preferência eu não queria dormir, sentir, deitar e fechar os olhos era uma verdadeira tortura.

Foi então que comecei a conhecer os clientes dela e acabei sucumbindo, para mim não fazia muita diferença viver ou morrer.

Passei a levar roupas extremamente sensuais pro trabalho,  me maquiava no fim do expediente e me trocava ao chegar na faculdade. Outras vezes já saia pronta do trabalho.  

Saí com exatamente três clientes dela. Havia também os outros garotos com quem eu saía, mas nada cobrava, mas eram sempre tratados como clientes. Não havia o envolvimento mínimo, era sempre a mecânica e aquela sensação de vazio que me movia.  

Eu tinha uma fúria dentro de mim. Queria que cada homem pagasse a dor que eu sentia.

Escrito por Andresa Vicentini/pesquisadora às 08h25 AM
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02/05/2006


História de um Garoto de Programa

Entrar na prostituição é algo que acontece sem perceber, um dia uma brincadeira,no outro um drink,uma noite um strip e quando percebe já virou michê.

Tudo acontece por acaso..uma conversa, forma-se um grupo, compartilha-se problemas,um convite para o primeiro programa...Já está dentro !!!

Com ele não foi diferente .....Segue mais uma história...

F., 27 anos, negro e alto.

F. queria conhecer o mundo,pensou que poderia ficar livre de todos os problemas saindo de casa.

Foi para Curitiba começou vendendo artesanato na praia, na baixa temporada, catou latinha de refrigerante na praia e quando já estava sem nenhum dinheiro traficou.

Numa noite de inverno comendo camarão cru na praia, foi abordado por um homossexual e fez seu primeiro programa.

Deste dia em diante virou michê, seu primeiro dinheiro foi fácil afinal foram apenas brincadeiras e isso fez seus "olhos brilharem" como se tivesse encontrado a fórmula secreta para ganhar dinheiro.

Conheceu alguns boys se mudou para SP , foi trabalhar em sauna com 21 anos,nos primeiros meses faturou alto, comprou roupa, fez amigos, experimentou de tudo, ficou viciado em droga,pagou hotel adiantado, mandou dinheiro para casa...Deu início a sua nova vida ...

Após alguns meses seu faturamento começou a cair , afinal já não era mais novidade agora era mais um,entrou na cocaína de cabeça para aguentar os programas cada vez mais "sujos", gastou tudo, em algumas noites dormiu na rua por estar sem o dinheiro para pagar o hotel, tentou voltar para cidade natal mas não consegiu se adaptar ..Já não fazia mais parte daquele grupo..

Virou ator pornô em boate de sexo ao vivo, transou sem camisinha...entrou no NA (narcóticos anônimos), está tentando vaga numa clínica de recuperação de dependentes e esperando o resultado do teste de HIV.

Daquele negro ,alto , musculoso e sorridente sobrou a figura magra, triste e desiludida !!!!

Palavras dele: "AH ... SE O TEMPO VOLTASSE ATRÁS ... A PROSTITUIÇÃO E A DROGA ME TIRARAM TUDO QUE AMAVA NA VIDA"

 

Escrito por Andresa Vicentini/pesquisadora às 03h20 PM
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